O “colesterol bom” realmente merece esse adjetivo?

 

Novo estudo sugere que os níveis muito baixos e muito altos de “colesterol bom” são um fator de risco

 
 
 

JAMES BROWN

Abacate pode reduzir níveis de colesterol

Abacate pode reduzir níveis de colesterol PIXABAY

A taxa de mortalidade das pessoas com níveis extremamente elevados do chamado “colesterol bom” é 65% maior do que a das pessoas com níveis normais, de acordo com um novo estudo dinamarquês. Isso significa que o colesterol bom passou de herói a vilão? Podemos continuar considerando que o colesterol bom é bom?

Parece que o colesterol nunca deixa de ser notícia. Muitas vezes, estudos científicos concluem que o colesterol e as drogas que o controlam, como as estatinas, influenciam em várias doenças, além das coronárias, do Alzheimer ao câncer. O colesterol é essencial para a vida e é encontrado em todo o corpo. É uma substância parecida à cera, produzida no fígado, mas que também é encontrada em alguns alimentos, como os produtos lácteos integrais e as gorduras animais.

colesterol não pode viajar no sangue sozinho, porque não se dissolve no plasma sanguíneo aquoso. Para isso, combina-se com proteínas com as quais forma lipoproteínas. Existem dois tipos: lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e lipoproteínas de alta densidade (HDL). No geral as LDL são conhecidas como “colesterol ruim” porque transportam o colesterol do fígado para outras células do corpo. As HDL são conhecidas como “colesterol bom” porque fazem o oposto, transportando o colesterol de volta ao fígado, que é responsável por decompô-lo.

As mudanças nos níveis de colesterol no sangue podem provocar um acúmulo de gordura nas paredes das artérias, aumentando o risco de acidente vascular cerebral ou infarto do miocárdio. Sabe-se que este risco é especialmente elevado se uma pessoa tem uma relação LDL/HDL elevada. No entanto, há novas evidências que indicam que pode não ser sempre assim.

Risco em forma de U

O novo estudo dinamarquês reuniu mais de 116.000 homens e mulheres do país de dois grandes cortes de estudo. Foram tiradas amostras de sangue dos participantes no começo do estudo para medir os níveis de colesterol. Foi feito um acompanhamento por vários anos, até 23 em alguns casos.

Durante o período de acompanhamento mais de 10.000 participantes morreram. Quando os pesquisadores analisaram os dados, descobriram algo muito interessante. A relação entre os níveis de HDL e a mortalidade tinha forma de U. Isso significa que aumentava o risco de morte em pessoas com níveis muito baixos ou muito altos. E também que as pessoas com níveis mais altos de HDL tinham mais probabilidade de morrer do que aquelas com níveis normais de HDL, e aproximadamente a mesma probabilidade do que aquelas com níveis baixos de HDL.

Havia diferenças perceptíveis entre homens e mulheres, de modo que o nível ideal de HDL nos homens era cerca de 25% mais baixo do que nas mulheres.

Talvez os pesquisadores estivessem prevendo que baixos níveis de HDL representariam um fator de risco de morte prematura, mas a evidência de que os níveis mais elevados de HDL significam um risco semelhante são muito interessantes. O que esses resultados significam para nós?

Uma causa genética?

Nenhum estudo é perfeito, e este, mesmo sendo muito grande, está baseado em uma única amostra de sangue no momento do início do estudo, e se limitava a pessoas brancas de ascendência dinamarquesa. Isso significa que ao longo do estudo podem ter ocorrido alterações no nível de HDL que não foram levados em conta, e que os resultados podem não ser aplicáveis a populações mais diversas etnicamente.

Na verdade, poucas pessoas têm níveis muito altos de HDL, e neste estudo apenas 216 homens e 218 mulheres, de um total de 116.000 participantes, apresentaram concentrações mais elevadas de HDL, de modo que o número real de pessoas afetadas provavelmente seja baixo, embora o risco relativo seja alto.

No entanto, o estudo nos permite refletir sobre o que realmente sabemos em relação ao HDL. Embora existam observações que provam a relação entre o HDL e o risco de doenças coronárias, a relação não parece causal, já que aumentar os níveis de HDL (embora não a níveis muito elevados) através de drogas não reduz o risco de doenças coronárias ou de morte prematura.

É possível que uma mutação genética seja a causa inicial de um nível de HDL extremamente alto, por isso tais casos são tão raros. Como o HDL tem subtipos, também é possível que um ou mais destes subtipos sejam essenciais para evitar doenças cardíacas, mas é preciso pesquisar mais para confirmar isso.

Os médicos deveriam levar em conta este estudo e considerar que se observarem casos de níveis extremamente elevados de HDL em seus pacientes talvez seja necessário um acompanhamento. É, no entanto, pouco provável que muitas das pessoas que estejam lendo este artigo tenham níveis de HDL altos o suficiente para deixá-los, ou seu médico, preocupados. No geral, continua sendo uma boa ideia assumir que o colesterol bom é bom para o coração.

James Brown é professor de Biologia e Ciências Biomédicas da Universidade de Aston. O cientista não trabalha para nenhuma empresa ou organização que possa se beneficiar deste artigo, nem assessora, possui ações delas ou recebe financiamento. Não declara outros vínculos relevantes além do cargo acadêmico mencionado.

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