A MORTE DE UM FILHO

Em 31 de julho de 2008, o meu filho Johnny de 25 anos de idade, morreu em um acidente. Quando ouvi a notícia de sua morte, eu estava no estacionamento da Living Wisdom School at Ananda Village, onde eu trabalho. Era 09:00h e muitos projetos importantes que estavam em preparação para o início do ano escolar me esperavam.

De repente, aqueles projetos se evaporaram e não tinham mais nenhum sentido. Naqueles poucos segundos, senti um golpe de aríete em meu estômago ficando, completamente, sem respiração. Eu estava envolvido em horror e descrença enquanto observava o meu pior pesadelo se desdobrar diante de mim.

   Um bálsamo imediato para os temores

 

Fui para casa e alguns amigos se reuniram em volta de mim. Mas antes disso, um ministro de Ananda realizou a Cerimônia de Ascensão Astral * para a alma de meu filho o que me fez começar a me sentir aterrorizada novamente. Quando me acalmei comecei a perceber que a alma de meu filho estava protegida.

Eu estava com tanto medo de que ele estivesse perdido e confuso depois de ter abandonado o corpo de uma forma completamente abrupta. A cerimônia de ascensão astral agiu como um bálsamo de imediato contra esses medos e comecei a sentir a presença interna de Deus novamente e, embora continuasse a ter altos e baixos, a partir daí sabia que Johnny estava seguro nas mãos de Deus. Vários meses depois, ele veio até a mim em um sonho doce e pacífico e me informou que realmente se encontrava bem.

    O começo do processo de cura

Durante os primeiros dias, os amigos e a família vieram em um fluxo constante, me oferecendo ajuda em todos os níveis. Um dos meus amigos fez uma montagem maravilhosa no computador com a foto de Johnny junto às imagens de Jesus e Paramahansa Yogananda. Na foto Johnny aparece se curvando diante d'Eles e sendo abraçado por Eles.

Com essa foto começou meu processo de cura e olhando para ela me lembrei que Johnny era seguro. Fizemos um altar em torno dessa imagem, colocando nela muitas outras fotos de todas as fases de sua vida, bem como, muitos arranjos de flores que os amigos tinham trazido. Durante muitas noites eu dormi em frente a esse altar encontrando a minha única paz, ali.

Uma semana após a morte de Johnny, oferecemos um serviço memorial no anfiteatro de Ananda Village. Mais de 500 pessoas compareceram. Johnny tinha excelentes amigos de todas as esferas da vida, mas eu não tinha ideia de quantas vidas ele havia tocado até a sua morte. Eu poderia dizer ao olhar para os olhos dos seus amigos, que muitos deles não tinham encontrado nenhuma maneira de se livrar da dor e do vazio que a sua perda causou.

  O poder que veio a mim

Enquanto caminhava para o anfiteatro me sentia chorosa, nervosa e trêmula, porém ainda não tinha escolhido o que falar. Eu queria dar aos amigos de Johnny, que não tinham uma base espiritual, algo que os ajudassem a superar sua perda.

De repente, senti um poder vir em mim e o nervosismo desapareceu. Deus estava me dando força para fazer isso. Esse mesmo poder fluiu através dos dois ministros de Ananda que lideravam o serviço e em muitos daqueles que se levantaram para falar sobre Johnny. Durante o serviço havia um sentimento tangível da presença de Deus.

Para tentar trazer um pouco de paz para os amigos de Johnny, decidi falar sobre sua vida e algumas das incríveis qualidades de sua alma. Johnny tinha um coração enorme que cabia as realidades de muitas pessoas, uma independência inflexível, energia poderosa, força de vontade e um maravilhoso senso de humor. Ele era corajoso, leal e não-julgava.

Para honrar o espírito de Johnny era importante para aqueles que o amava, não somente apreciar as maravilhosas qualidades de sua alma, mas firmá-las em si mesmos. Era uma forma tangível de preservar sua memória.

           Uma forma de se aproximar de sua alma

Aliada às belas qualidades de sua alma, meu filho também mantinha um profundo apreço e amor pela natureza. Partilhava sua sintonia com ela, mas talvez não com a profundidade que ele possuía.

Descobri, desde o seu falecimento, que quando orava percebia seu espírito e sentia a proximidade de sua alma. Isso aconteceu algumas vezes durante a meditação, mas, mais frequentemente, quando me encontrava em contato com a natureza.

Tive uma experiência com um coiote parado no meio da estrada fazendo contato visual e se comunicando. Na manhã seguinte, exatamente na mesma hora, um outro chacal cruzou a estrada e repetiu esse comportamento. Belas e pequenas raposas cinzentas apareceram e desapareceram em intervalos regulares. Uma vez diante da minha visão dois falcões estavam envolvidos em uma batalha aérea. Recentemente, vi a primeira águia pelada  circulando e voando acima da minha cabeça.

Estes belos vislumbres da natureza foram um presente de Deus para mim, uma maneira de me comunicar com a alma de Johnny. Aprendi que outros tem experiências semelhantes após a morte de um ente querido. Cada uma dessas experiências é única e tem o "sabor " especial da pessoa amada. Cada uma é uma oferta de amor para aqueles deixados para trás. É como se os nossos entes queridos estivessem dizendo, "Estou bem aqui. Te amo. Basta ouvir e eu me conectarei a você."

 A “ida e vinda” da aflição

Mesmo quando sintonizamos com a natureza da alma de nosso ente querido, ainda sofremos de uma forma muito humana. Não podemos ajudar, não podemos mais falar, nem tocar e nem abraçar ele. A realidade de sua existência sólida, simplesmente, acabou. O luto é uma experiência que alterna idas e vindas a partir da profunda calma adquirida pelo entendimento de que o espírito do seu ente querido está em Deus e vive em Seu âmago e, ao mesmo tempo, de repente e sem aviso, vem um choro incontrolável devido a falta do seu sorriso, que tanta falta me faz.

Durante o serviço memorial de Johnny me senti forte, envolvida na graça de Deus e em paz com seu falecimento. Dois dias depois eu estava soluçando sobre uma caixa de Cheerios (marca de um cereal) que pertenceu a ele. Estou aprendendo a aceitar as duas realidades, a fim do processo de cicatrização percorrer o seu curso e se mover mais profundo para o centro da experiência e encontrar a paz, lá.

Uma palavra sobre como se relacionar com as pessoas que experimentaram uma profunda perda: Nem sempre evite se aproximar. Mesmo que você não possa encontrar palavras adequadas para expressar sua simpatia dê amor em silêncio. Controle a pessoa. De qualquer maneira, as palavras são muito inadequadas na maioria das vezes. A sensibilidade a esta realidade é importante. Tenho lembranças profundas e significativas das maneiras, pelas quais, as pessoas me confortaram e eu nunca vou esquecer dessas gentilezas.

         A doação do amor ilimitado

A alternativa para o murchamento, até na dor da perda de um ente querido é amar mais. A dor pode contrair ou expandir o coração. Quando escolhemos a expansão e não a contração, temos espaço para se movimentar dentro do processo do luto e, também temos o espaço para se esticar e tocar o espírito do nosso ente querido

Afinal, o amor que sentimos pelos nossos amigos e familiares não é o nosso amor. É o amor de Deus e este amor é imenso, incomensurável e sempre em expansão. Ele nunca pode ser exprimido apenas como algumas das formas de amor que nós consideramos nosso.

O presente secreto da perda de um ente querido é que você é catapultado para um mundo de amor expansivo. Junto com os sentimentos de perda humana profunda, tenho experimentado a dádiva do amor sem limites.

     Todos experimentam perdas

Esta é a minha história. E, no entanto, não é apenas a minha história, é a história de todos. Nós não vamos evitar a dor da perda catastrófica nesta vida. Há uma história na tradição Indiana da experiência de uma viúva com um filho amado. O filho morreu, e a mãe ficou inconsolada. Ela procurou um homem santo e o exigiu através de seus soluços que ele trouxesse seu filho de volta à vida.

O homem santo concordou. "Sim," disse ele. "Eu farei isso. Mas, primeiro, você deve me trazer óleo da casa de uma família na aldeia que não tenha experimentado a morte."

A idosa deixou a presença do homem santo saltitando. Ela correu de um lado para o outro da vila pedindo o óleo. Mas, gradualmente, sua euforia se desvaneceu. Na sua dor profunda ela tinha esquecido que a tristeza da morte é universal. Ela voltou para o santo homem humilhada, entendendo que todos sofrem pela perda dos seus entes queridos

     Nossas provas são feitas sob medida

Nenhum de nós é um estranho para a tristeza nesta vida. Antes, eu já tinha experimentado um outro tipo de perda e sabia que o choque, a raiva, a negação e a eventual aceitação são algumas das etapas do processo do luto. Mas essa prova estava fora de qualquer proporção com tudo que eu já havia passado.

Eu li uma série de artigos úteis sobre a viagem do luto e encontrei algum consolo no sentido da experiência comum. É um alívio saber que as emoções passadas pelas pessoas possuem um padrão geral durante este processo. E, no entanto, as nossas provas são para cada um de nós feitos sob medida. Eu descobri que a minha experiência, por vezes, se encaixa no padrão do processo de luto típico e em outras vezes torna-se exclusivamente minha. Eu estou tentando deixar o processo acontecer em mim, não para organizá-lo, antecipá-lo ou julgá-lo.

Eu sei disso. Tenho uma conexão com Johnny que não foi interrompido com a morte. Se há algo gratificante nesta experiência é que na tentativa de ir mais fundo no Espírito para se conectar com Johnny, fui muito mais profundo no Espírito. E me tornei mais consciente de que não há separação entre o Espírito e o eu.

 

* An Ananda ceremony to uplift and comfort the departed and the bereaved.

* Cerimônia de Ananda, a fim de elevar e confortar o falecido e o enlutado.

By Hridaya atwel 

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